Wednesday, September 30, 2026

Tutores levam dúvidas sobre cães e gatos à inteligência artificial




Ferramentas digitais mudam a busca por informações sobre alimentação de cães e gatos


Texto: Sérgio Dias
Fotos: Pexels

Uma dúvida sobre a ração, uma mudança nas fezes ou um comportamento que apareceu pela primeira vez. Até recentemente, as respostas poderiam começar em uma ligação para o veterinário ou em uma pesquisa na internet. Agora, parte dos tutores acrescentou outro caminho à rotina: descrever o problema para uma ferramenta de inteligência artificial e aguardar uma resposta em segundos.


Uma pesquisa com 2 mil tutores mostra a dimensão desse comportamento. Entre os participantes, 43% disseram utilizar ferramentas de IA para obter informações sobre saúde ou nutrição dos pets e 55% recorrem à tecnologia especificamente para questões relacionadas à alimentação. Os usuários consultam essas ferramentas, em média, sete vezes por semana.

A mudança não significa que o médico-veterinário tenha perdido a posição de referência. No levantamento, 71% apontaram esses profissionais como a fonte em que mais confiam para orientações de saúde e nutrição, enquanto 14% disseram depender principalmente da inteligência artificial.


O dado que amplia a discussão aparece quando a informação deixa a tela e chega à rotina do animal. Segundo a pesquisa, 59% afirmaram já ter modificado algum aspecto dos cuidados com o pet com base em recomendações obtidas por IA. Ao mesmo tempo, metade relatou insegurança sobre decisões tomadas depois de pesquisas on-line.

A inteligência artificial pode organizar informações, explicar termos utilizados em exames, ajudar o tutor a preparar perguntas para uma consulta e apresentar conteúdos sobre cuidados cotidianos. A limitação começa quando uma resposta geral é interpretada como diagnóstico ou prescrição individual.

Um cão que deixou de comer, por exemplo, pode apresentar o mesmo sinal associado a diferentes condições. Para investigar a causa, o veterinário considera idade, histórico, vacinação, medicamentos, exame físico e, quando necessário, exames complementares. Uma ferramenta digital não dispõe automaticamente desse conjunto de informações nem examina o paciente.

O mesmo raciocínio vale para alimentação. Quantidade, composição e necessidade energética variam conforme espécie, peso, idade, atividade física e condições clínicas. Alterar a dieta com base em uma resposta produzida sem conhecer o animal pode gerar decisões incompatíveis com suas necessidades.

Medicamentos acrescentam outro risco. Dose, interação entre substâncias e contraindicações exigem avaliação profissional. Produtos utilizados por seres humanos também podem representar perigo para cães e gatos.

Isso não elimina o papel da IA como ferramenta de informação. O desafio é estabelecer a fronteira entre compreender um assunto e tomar uma decisão clínica. Uma pessoa pode utilizá-la para entender o significado de determinado termo antes da consulta sem transformar a explicação em tratamento.

A tendência também modifica a conversa dentro do consultório. O tutor pode chegar com mais perguntas, hipóteses e informações obtidas anteriormente. Para o veterinário, isso cria a necessidade de avaliar não apenas o animal, mas também esclarecer quais conteúdos encontrados são aplicáveis àquele caso.

A tecnologia colocou uma fonte de respostas no bolso de quem cuida de cães e gatos. A pesquisa mostra, porém, que a confiança no médico-veterinário permanece maior. Talvez a questão daqui para frente não seja escolher entre algoritmo e profissional, mas compreender o papel de cada um: a IA pode ajudar a formular a pergunta; examinar o pet e decidir o que fazer com a resposta continua exigindo avaliação veterinária.

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